Gonçalo tinha um ano quando começou a andar. Dois quando disse a sua primeira palavra, possivelmente “mamã” ou “papá”, para ânimo de algum dos dois interessados. As metas seguintes foram apertar os sapatos, tomar banho sozinho e aprender a escrever…Depois de as alcançar, decidiu que aprenderia a voar.
Aos quatro anos, subiu ao parapeito do quarto e, estendendo os braços, deu um passo em frente. Como os heróis dos desenhos animados, que via todas as manhãs, gritou algo como “Aqui vou eu” ou “Para o Infinito”. As crianças que se tinham reunido na rua, aos seus pés, aplaudiram a sua coragem. A gravidade foi menos simpática e Gonçalo viu os arbustos do jardim antes de conseguir sequer bater os braços e pôr os olhos no horizonte. A aventura concedeu-lhe um braço partido e alguns ossos fora do sítio, mas Gonçalo não desistiu. Aos cinco anos pediu umas asas para o seu aniversário, aos seis pediu um avião e aos sete a sua lista estava cheia de todos os livros sobre aves e aviões que conseguira encontrar. Assim que os recebeu lançou-se num profundo estudo sobre penas, asas e hélices.
No dia em que eu fiz 18 anos (Gonçalo tinha 11), recordo-me de um episódio que se cravou na minha memória e que certamente marcou a sua vida. A minha casa estava cheia de amigos e parentes, que chegavam a cada minuto, dando-me os parabéns pela maturidade recém conquistada. Na altura, senti-me afogada entre aquela gente, hoje agradeço-lhes por me terem feito sair para o jardim. Era um daqueles dias quase perfeitos: o sol brilhava, a relva parecia fresca e convidativa, e as crianças brincavam na rua. Sentei-me e, imediatamente, vi-o, do outro lado da estrada, a alguns metros de mim. Estava sentado na relva, tal como eu, à sombra de uma árvore, com um livro numa mão enquanto a outra se estendia para o pardal que saltitava à sua frente. Um pardal comum, que certamente pousara ali em busca de alguma migalha. Estavam de olhos fixos um no outro, cruzando os olhares, aproximando-se e voltando a recuar, tentando compreender-se. O pardal olhava Gonçalo, tentando digerir aquela atenção incomum depositada nele. Gonçalo, esse, estudava o animal com a inveja típica de uma criança que tenta perceber por que motivo é quem é. Eu? Eu também estava concentrada naquelas duas criaturas, com o fascínio de quem olha um quadro único, belo. De olhos semicerrados e um meio-sorriso nos lábios. Este episódio contribuiu, como nenhum outro, para eu entender aquele rapaz, que sempre morara a dez passos de mim e com quem eu nunca tivera um verdadeiro diálogo. Acho que me entendem quando digo que Gonçalo tinha tudo para ser feliz. Tinha uma família perfeita e estável, numa casa perfeita e cristã, numa rua segura. Era um óptimo aluno, conseguira o seu animal de estimação, fazia amigos facilmente. Nunca lhe faltara nada. E mesmo assim, era comum apanhá-lo a olhar para o céu com uma ansiedade quase desesperada e uma mágoa profunda. Com quem, porquê? Nunca o percebi até àquele dia.
Podia ter acontecido em qualquer outra altura, em qualquer outro dia em que o sol não brilhasse tão intensamente. Um dia não tão perfeito. O pardal saltou finalmente para a mão de Gonçalo e ambos sorrimos. Uns metros mais à frente, uma criança riu alto demais, perturbando o silêncio que nós conquistáramos. Como seria de esperar, o pássaro assustou-se e voou da mão de Gonçalo para a estrada. Voltou a olhar para o rapaz, e foi precisamente nesse momento que um carro se lembrou de passar por ali, entre a minha casa e a dele. Aquela mudança tão repentina de cenário fez-me levar a mão ao rosto, horrorizada. O meu quadro desaparecera. Gonçalo limitou-se a arregalar os olhos e a olhar para o pardal, morto e estendido no chão. O carro partira tão rapidamente como chegara. Baixou a cabeça, e quando a voltou a erguer, os seus olhos, cheios de lágrimas que choraria segundos depois, cruzaram-se com os meus. Vi o canto dos seus lábios tremer e foi então que entendi. O sol continuava a brilhar sobre nós, a relva continuava fresca e convidativa., como se nada se tivesse passado. Tudo perfeito, um dia perfeito. A vida perfeita, a família perfeita, a casa perfeita. Olhei também eu para o céu e, quando voltei a cruzar os olhos com Gonçalo, partilhei a mágoa que ele sentia. Uma mágoa tão profunda que em mim duraria muito tempo e que nele nunca chegaria a desaparecer. Uma mágoa com a vida e com o mundo mas, acima de tudo, uma mágoa com Deus.
Uma semana depois do meu aniversário, tudo parecia ter voltado à normalidade. Gonçalo arranjara uma caixa onde pôr o pardal e enterrara-o dentro de um vaso, que não saiu do seu parapeito por muito tempo. Eu voltei à minha rotina e ele continuou a viver a sua vida tão singular. É um tanto irónico que o maior sonho de Gonçalo tenha sido, também, a sua desgraça. Não estava aquele pardal enterrado há nem três meses quando a morte voltou a cair sobre a sua vida. O seu pai estava fora em trabalho há alguns meses, a mãe foi visitá-lo. Éramos os únicos em que ela confiava para ficarmos com o rapaz, após tantos anos como vizinhos.
Lembro-me perfeitamente de quando recebemos aquele telefonema. Gonçalo e eu tínhamos desenvolvido uma certa empatia desde aquele dia. Estávamos sentados a jantar, e o prato dele era um amontoado de um arroz vermelho. Nunca fora uma má boca, mas recusara-se terminantemente a comer as codornizes que a minha mãe cozinhara. “Também me comerias ao jantar se eu tivesse penas e voasse?”. Comecei por sorrir-lhe, levando uma garfada à boca. Mas o olhar acusador e incrédulo dele, poisado em mim, não me deixou apreciar o gosto da comida. Retirei a carne do prato, numa dura despedida, e olhei desanimada para o arroz que lá ficara. Foi nessa altura que o telefone tocou. A minha mãe levantou-se e atendeu-o na sala, enquanto eu e Gonçalo riamos e falávamos do céu, lá fora. Ouvimos, com um estrondo, o telefone cair pesadamente e, quando alcançamos a sala, já a minha mãe estava agarrada ao coração com o rosto pálido e as lágrimas a brotarem-lhe dos olhos. Ainda pensei em perguntar o que tinha acontecido, mas aquele olhar não enganava ninguém. Nem a mim nem a ele. O avião caíra, e os seus pais caíram com ele.
Nessa noite, juntei-me a ele no alpendre, e partilhámos um cobertor. O ar estava frio e aninhei Gonçalo nos meus braços. Quando a chuva chegou, ele chorou com ela, e eu chorei com ele. Naquele momento senti-me como se tivesse nas mãos o maior tesouro do mundo. Juro-vos, nem todas as codornizes do mundo teriam valido por aquele rapaz. E apesar de nunca termos sido muito próximos, eu compreendia-o, e fomos verdadeiros amigos, nessa noite. Estão a ver, é que eu estava sozinha e ele não tinha mais ninguém no mundo.
Ficámos com ele mais umas semanas, até uma tia sua se mudar para a casa onde ele morara toda a vida. Não trabalhava longe dali e, como não era casada nem tinha filhos, concordou em mudar-se para lá. Para ela, Gonçalo era uma novidade da sua vida rotineira e acarinhou-o e mimou-o até se fartar dele. Quando isso aconteceu, empenhou-se em cura-lo da sua “ridícula obsessão”. Apressou-se a pintar de um branco deslavado e monótono as suas paredes, antes cheias de nuvens e de sonhos. Substituiu os seus livros de aves e aviões por outros de carros e aventuras, em que as pessoas não tiravam os pés do chão. Em breve, a sua vida tornou-se numa sombra do que antes era. Encontrava-o sempre sozinho, com um livro nos braços, e não saía muitas vezes do seu quarto. Apesar disso, eu arranjava maneira de chegar até ele. A sua tia confiava em mim e há muito tempo que Gonçalo se tornara no meu único interesse. Amava aquele rapaz e faria tudo para o fazer feliz. Passei a oferecer-lhe vários livros, que a sua tia certamente desaprovaria, e trouxe-lhe grandes cartazes de aves que ajudei a pendurar, para substituir o céu e as nuvens. Certo dia trouxe-lhe um pequeno avião de plástico e cartão, e montámo-lo juntos. Mas nada o animava. Recebia os meus presentes com um sorriso nostálgico de quem sente saudades de uma vida passada e, apesar de apreciar a minha companhia e as minhas palavras carinhosas, era cada vez mais difícil para mim traze-lo da concha onde se fechava. Foram várias as vezes em que cheguei ao seu quarto e o encontrei sentado na cama, de olhos fixos no seu reflexo no espelho. Após o vaso com o pardal ser retirado do parapeito, não voltou a abrir as persianas. O Inverno chegara.
Finalmente, houve um dia em que o encontrei debruçado sobre umas folhas de papel com alguns dos livros que eu lhe oferecera abertos e espalhados à sua volta. Tinha um lápis na mão e os olhos concentrados como há muito tempo eu não os via. Parecia ter ganho uma nova vida. Sentei-me junto dele e, quando percebeu a minha presença, explicou-me o que fazia. Era mais um dos seus planos, mais um plano para voar. Alegre por ele ter recuperado o seu antigo sonho, ajudei-o. As persianas estavam abertas e eu fiquei ali até ao anoitecer. Lanchámos bolachas com leite quente. No final do dia, quando o chão estava cheio de papéis rasgados ou amachucados, encontramos por fim uma fórmula que nos agradava. Ele pegou na folha e sorriu. Depois, despedimo-nos com um abraço forte e longo. Afaguei-lhe os cabelos, ajoelhei-me e disse-lhe que tudo voltaria a ser como antes. Ele acenou, com os olhos a brilhar. Tinha 11 anos e uma vida inteira à sua frente.
No dia seguinte, Gonçalo atirou-se da janela mais alta da cidade. Ninguém sabe como lá chegou. Encontraram a nossa folha, o nosso plano, no seu bolso. Entregaram-ma e depois de a dobrar carinhosamente e de lágrimas nos olhos, guardei-a no bolso. Dizem que quando o encontraram tinha os olhos abertos para o céu e sorria. Eu continuo a acreditar que ele conseguiu finalmente o seu voo. O primeiro e o último. Ou talvez não. Talvez ele voe, onde quer que esteja. A folha dobrada continua segura no meu bolso. Leio-a todos os dias e pesa-me quase tanto nas mãos como o meu coração me pesa no peito. Quem sabe, um dia, talvez eu me junte a ele.
Fezme lembrar muito aquela musica dos pink floyd, sabes, learning to fly? ha uma parte no clip, se bem me me lembro em que esta um homem a correr num campo de milho (acho, nao vejo o clip a muito tempo) e chega a um ponto em que penso que se torna em uma ave.
Essa parte fazme pensar no gonçalo.
Gostei muito
bjs
Nao conheço a musica, mas assim que puder vou ver esse video.
Bjinho***